Previsibilidade e as Dominators

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Previsibilidade. Instrumento pelo qual o ser humano almeja possuir, ou pelo menos tenta utilizar constantemente. A sociedade se vê dentro de uma conjuntura onde o estabelecimento de um caminho a ser trilhado – escolher, desde o ensino médio, o curso a ser feito no ensino superior, por exemplo – se faz necessário. Seria uma forma de dominação perfeita sobre a natureza. Sobre o mundo em que fazemos questão de esmagar insetos, de nos impor, de destruí-lo e/ou moldá-lo a nosso prazer por meio de previsões das consequências que advêm das nossas escolhas. No entanto, há uma questão a ser pensada: é realmente possível prever o futuro?

Dentro do mundo anime, Psycho-Pass apresenta-se fortemente como um ótimo objeto de deliberação. Em síntese: um mundo futurístico onde todos conseguem definir suas vidas através de um sistema operacional, supostamente com inteligência artificial, conhecido como Sibyl. Qual a sensação em saber que as suas características seriam melhor aplicadas em determinada profissão? Saber que tipo de alimento se deve ingerir, em razão da quantidade de caloria necessária para o dia? Personagens do drama, como Akane,  aceitam a existência desse tipo de vida e não veem outra forma de se situarem no mundo. Tudo, nesse contexto, é previsível assim como a criminalidade. Esta última é avaliada analisando o nível de “estresse” individual, que diz quem deve ser preso/reabilitado e quem deve ser morto.

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O papel de um sistema operacional como Sibyl, onde se seleciona aqueles que devem ser imputados, ou não, por uma força coativa, não se difere muito do sistema penal vigente no paradigma brasileiro. Sim, há uma seletividade preestabelecida. Os agentes não portam armas embutidas com scanners (Dominator), por onde Sibyl age, capazes de analisar o perfil do suspeito, onde há opção de se neutralizar o alvo. O próprio agente é o scanner. Ele realiza o que lhe fora designado desde seu ingresso na instituição: prender indivíduos que estão maculando a ordem vigente. Do mesmo modo, é a posição adotada quando se deve, ou não, prosseguir com o inquérito policial e/ou ação penal, dependendo da lente para quem se aponta.

Vivemos em uma sociedade que se diz em desenvolvimento. Porém, é uma sociedade que implanta um sistema que não é perfeito e age para se parecer como um sistema eficiente. Esta eficiência é vista como a arte punitiva em ação. Estabelece-se uma ideia, não de uma igualdade, mas uma legitimação da desigualdade. Assim como em Psycho-Pass, muitos argumentam que aquele suposto meliante/deliquente/trombadinha deve ir a prisão e manter-se lá, ou, quem sabe, ocorrer o extermínio de todos que se encaixam nesse modelo. Motivo? Uns afirmam uma suposta recuperação, outros dizem que não há lugar para eles no mundo. A questão da segurança, da ordem, em primeiro lugar. Uma segurança em que o importante, pelo visto, é que: a determinados sujeitos há uma aplicação penal, a determinados sujeitos imponhamos a lente de Sibyl.

Trata-se então de garantir, de fato, uma ordem em um determinado recorte. Uma ordem que está focada na questão de previsibilidade do crime, uma vez que aqueles potenciais criminosos estão sujeitos aos olhos de suspeição de forma constante. Seria, assim, a capacidade de manuseamento, bastante complexa, do espaço e de condutas para se seguir a determinado ponto no futuro, ou seja, um futuro que é criado e não dado.

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